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Anthropic Protocola IPO e Revela Aposta de US$ 518 Bi em Infraestrutura

O prospecto da Anthropic expõe US$ 518 bi em compromissos de infraestrutura, prejuízo de US$ 42 bi e valuation-alvo de US$ 2 trilhões.

Publicado em08 de outubro de 20266 min de leituraFabian Martinelli
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Anthropic Protocola IPO e Revela Aposta de US$ 518 Bi em Infraestrutura

A empresa que quer valer US$ 2 trilhões perdeu US$ 42 bilhões em 2025

Em 1º de junho de 2026, a Anthropic submeteu confidencialmente seu pedido de abertura de capital à SEC americana. Quatro meses depois, o prospecto vazou para a Reuters e o mundo viu os números: receita de quase US$ 4,6 bilhões em 2025, crescimento de 12 vezes em relação ao ano anterior, prejuízo líquido de US$ 42 bilhões no mesmo período e um compromisso de infraestrutura que passa de US$ 518 bilhões ao longo de aproximadamente dez anos.

Não existe precedente. Nenhuma empresa de tecnologia chegou a um IPO carregando uma estrutura de custos nessa escala.

A Anthropic, criadora da família de modelos Claude e registrada legalmente como Public Benefit Corporation em San Francisco, pretende captar mais de US$ 100 bilhões na oferta. O valor de mercado esperado passa de US$ 2 trilhões, mais que o dobro dos US$ 965 bilhões alcançados na rodada Série H, fechada em 28 de maio de 2026. Para efeito de comparação, a SpaceX abriu capital em junho de 2026 avaliada em US$ 1,77 trilhão. A Anthropic quer ultrapassar esse patamar logo na estreia.

A data do IPO ainda não foi definida. Bancos como Goldman Sachs, JPMorgan e Morgan Stanley lideram a operação, mas nenhuma ação, preço ou data de negociação foi anunciada até 7 de outubro de 2026. Relatórios indicam que a oferta deve ocorrer após as eleições legislativas americanas de novembro de 2026.

O que está dentro dos US$ 518 bilhões

O número que mais chamou atenção no documento de 261 páginas é o total de compromissos de infraestrutura: pelo menos US$ 518 bilhões divididos entre seis parceiros ao longo de cerca de uma década. Aproximadamente 80% desse valor é não cancelável, ou seja, a Anthropic paga mesmo que não use a capacidade contratada.

O detalhamento por parceiro:

  • Google (Alphabet): pelo menos US$ 111,1 bilhões, de abril de 2026 a julho de 2033.
  • Amazon: US$ 110 bilhões, de maio de 2026 a abril de 2036.
  • Microsoft: US$ 31,4 bilhões, de novembro de 2026 a maio de 2033.
  • Broadcom (leasing de equipamentos, majoritariamente não cancelável): aproximadamente US$ 161,2 bilhões.
  • xAI (capacidade baseada em chips Nvidia): até US$ 84,5 bilhões até 2029, com possibilidade de cancelamento com 90 dias de aviso.
  • SpaceX (acordo de computação): US$ 1,25 bilhão por mês até maio de 2029.
  • AMD: comprometeu capacidade de computação que deve superar US$ 20 bilhões, e ainda se comprometeu a comprar até US$ 5 bilhões em ações da própria Anthropic.

O gasto com computação e infraestrutura em 2025 já chegou a US$ 7,33 bilhões, mais que o triplo do valor de 2024 e mais da metade das despesas operacionais totais do período, que ficaram em aproximadamente US$ 12,65 bilhões.

A Broadcom no centro do tabuleiro

O parceiro mais complexo da lista é a Broadcom. Além de fornecedor de chips, ela assumiu um papel de financiadora: o prospecto revela um compromisso de empréstimo de até US$ 42 bilhões à Anthropic, estruturado como notas conversíveis em ações. O objetivo é cobrir cerca de um terço de um contrato de leasing de capacidade de processamento TPU (unidades especializadas para cálculo de IA) de US$ 125,2 bilhões ao longo de cinco anos.

A Anthropic afirma que não pretende emitir essas notas antes da conclusão do IPO. E ela mesma sinalizou, no prospecto, que o duplo papel da Broadcom como fornecedora de hardware e credora representa um potencial conflito de interesse capaz de afetar o acesso e o preço da capacidade de computação.

Esse tipo de dado raramente aparece em S-1. A empresa está dizendo ao investidor: sabemos do risco, e você precisa saber também.

A parceria com Broadcom e Google foi expandida em abril de 2026, com foco em capacidade de processamento de próxima geração de múltiplos gigawatts, com início previsto para 2027. A Anthropic deve se tornar a maior cliente de computação da Broadcom em 2027.

Receita que cresce, prejuízo que não some

O crescimento de 12 vezes na receita entre 2024 e 2025 é real e expressivo. Quase US$ 4,6 bilhões em um único ano coloca a Anthropic entre as empresas de tecnologia que mais crescem no mundo.

O problema é a outra coluna da planilha. O prejuízo operacional de mais de US$ 8 bilhões e o prejuízo líquido de US$ 42 bilhões em 2025 mostram que cada dólar de receita ainda exige muito mais de um dólar em custo. A pergunta que Wall Street vai fazer na hora de precificar a ação é direta: em que ponto essa equação se inverte?

O prospecto também dedicou cerca de um terço das suas 261 páginas a fatores de risco. Entre os alertas, a empresa afirmou que observou "comportamentos perigosos" em seus próprios modelos e que sua tecnologia pode representar "riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade". É uma declaração incomum para um documento voltado a atrair investidores.

O que isso muda para quem dirige uma empresa no Brasil

A resposta direta é: ainda nada no curto prazo. A Anthropic continua sendo uma empresa privada, sem ações disponíveis ao público em 8 de outubro de 2026.

Mas o IPO importa por duas razões práticas para qualquer gestor que usa ou pensa em usar IA no negócio.

A primeira: o prospecto confirma que a corrida por capacidade de processamento está concentrando poder em poucos fornecedores globais. Google, Amazon e Microsoft absorvem mais de US$ 250 bilhões dos compromissos da Anthropic. Isso significa que as condições de acesso a modelos de IA de ponta vão depender cada vez mais de negociações feitas entre gigantes, não de escolhas abertas de mercado.

A segunda: a estrutura de custo revelada no prospecto mostra que modelos frontier não são baratos de operar. Quando a Anthropic precisar equilibrar as contas, a pressão por margem vai aparecer nos preços cobrados das empresas que acessam a API do Claude para automatizar processos. Quem já depende desse acesso precisa ter alternativas mapeadas.

Para a empresa média, o movimento certo é o mesmo de sempre: começar por uma dor específica, medir o retorno por ela, e só ampliar depois. A escala do IPO da Anthropic é um negócio de grandes investidores. A decisão de adotar IA na operação ainda começa por uma planilha, um processo repetitivo ou um tempo de resposta que está custando cliente.