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Hiperautomação até 2028: o que a previsão do Gartner muda para PMEs

Gartner prevê que 70% das empresas adotem hiperautomação até 2028. Para PMEs brasileiras, isso muda tudo — saiba por onde começar.

Publicado em15 de julho de 20265 min de leituraFabian Martinelli
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Hiperautomação até 2028: o que a previsão do Gartner muda para PMEs

O número que não dá para ignorar

Setenta por cento. Essa é a fatia das organizações globais que, segundo o Gartner, terão implementado alguma forma de hiperautomação até 2028. Não é uma projeção vaga sobre "o futuro digital" — é um prazo de três anos com um recorte quantificável. E para qualquer PME brasileira que ainda trata automação como investimento opcional, esse número precisa mudar a conversa interna com urgência.

A hiperautomação não é uma tecnologia isolada. É uma abordagem que une, de forma deliberada, pelo menos quatro camadas: inteligência artificial (modelos de linguagem, machine learning, visão computacional), RPA (Robotic Process Automation, como UiPath, Automation Anywhere ou o brasileiro Neobrain), integração de sistemas via APIs e iPaaS (como MuleSoft ou Make), e gestão de processos com ferramentas de BPM e mineração de processos como Celonis ou Bizagi. Separadas, cada uma dessas tecnologias já entrega ganho pontual. Unidas numa arquitetura coordenada, elas criam o que o Gartner chama de "malha de automação" — onde sistemas distintos se comunicam, decisões são tomadas automaticamente e exceções são escaladas para humanos apenas quando necessário.

O que diferencia hiperautomação de simples automação é exatamente essa orquestração. Um robô de RPA que preenche planilhas é automação. Um fluxo em que o mesmo robô extrai dados de NF-e, os reconcilia com o ERP via API, aciona um modelo de IA para aprovar ou recusar a transação e notifica o financeiro apenas em casos fora do padrão — isso é hiperautomação.

Por que 2028 importa agora, não em 2027

A armadilha clássica de projeções de mercado é usá-las para justificar inércia: "ainda temos tempo". O problema é que hiperautomação não se instala em semanas. Ela exige uma fundação — e essa fundação leva de 12 a 24 meses para ser construída com solidez.

Essa fundação tem três pilares inegociáveis:

1. Dados limpos e centralizados

Agentes de IA autônomos — o topo da pirâmide da hiperautomação — só funcionam com dados confiáveis. Uma PME com cadastro de clientes fragmentado em três sistemas diferentes, ou com processos financeiros que dependem de ajustes manuais em planilhas, não está pronta para automatizar decisões. Está pronta para automatizar erros em escala.

2. Processos documentados e estabilizados

Antes de automatizar, é preciso entender o que, de fato, acontece no processo — não o que deveria acontecer segundo o manual. Ferramentas de process mining como o Celonis fazem exatamente isso: mapeiam o fluxo real a partir de logs de sistemas. O resultado costuma surpreender: entre 30% e 50% das execuções reais de um processo diferem do fluxo desenhado.

3. Automações básicas já operando

A recomendação do Gartner é direta: comece pelos fundamentos antes de investir em agentes autônomos. Faturamento automático, conciliação bancária, onboarding de fornecedores, geração de relatórios periódicos — esses são processos com alto volume, baixa variabilidade e ROI rápido. São também o laboratório onde a equipe aprende a operar, monitorar e corrigir automações. Quem pula essa etapa e vai direto para IA generativa num processo crítico costuma recuar com custo alto e desconfiança interna.

O que uma PME brasileira pode fazer na prática

Trabalho com PMEs no Brasil, na Itália e nos EUA, e o padrão é consistente: as empresas que saem na frente não são as que investem mais — são as que começam antes e por um lugar certo.

Um exemplo concreto: um cliente do setor de distribuição, com faturamento anual de R$ 40 milhões, tinha um processo de conciliação de pedidos que ocupava dois colaboradores em tempo integral. Implementamos um fluxo com RPA (UiPath) integrado ao ERP via API REST, com uma camada simples de classificação por machine learning para identificar divergências. Em 90 dias, o processo passou a rodar em menos de 2 horas por dia, com intervenção humana apenas em 8% dos casos. Custo do projeto: R$ 85 mil. Retorno no primeiro ano: equivalente a 1,4 posição de CLT, além da redução de erros de conciliação em 94%.

Esse não é um caso de hiperautomação completa — é o primeiro degrau. Mas é exatamente o degrau que precisa ser dado agora para que, em 2026 ou 2027, a empresa esteja em posição de escalar com agentes de IA sem construir sobre areia.

O risco de não estar entre os 70%

A previsão do Gartner não diz que 30% das empresas vão falhar. Mas diz, implicitamente, que quem não adotar hiperautomação vai competir com estruturas de custo e velocidade operacional fundamentalmente diferentes das de quem adotou. Em mercados com margens apertadas — varejo, logística, serviços financeiros, agronegócio —, essa diferença de eficiência costuma ser decisiva.

Para PMEs brasileiras, o argumento é duplo: escalar operações sem aumentar proporcionalmente o headcount é uma necessidade em mercados onde o custo de pessoal é alto e a disponibilidade de mão de obra qualificada é limitada. Hiperautomação não é sobre substituir pessoas — é sobre não precisar contratar dez pessoas para fazer o trabalho que um processo bem automatizado resolve com duas.

O relógio está contando. E os três anos até 2028 são menos do que parecem quando se considera o tempo de maturação de uma arquitetura de automação bem feita.